quarta-feira, 8 de abril de 2015

Livre

Livre dentro de mim o desejo
Preso fora de mim, o mesmo desejo
Largo meus pensamentos boiando a margem de um rio qualquer
corrente que leva para longe tudo o que penso
corrente que prende, forte e justa, sem justiça alguma
fico a margem, risco dentro da margem, me sinto mais seguro
fico seguro, preso, amarrado por tais correntes
Onde o sentimento se perdeu a ponto de deixar sua origem
onde fiquei que me distrai e não percebi tantas mudanças
mudei tudo, mudou o mundo, Fidel saiu a francesa avisando todos
Elvis ainda encanta, Lennon e Gandhi ainda acreditam, o amor
bem, este não tenho tanta certeza assim...
furacão domado dentro da garrafa de coca-cola
perdi minhas chaves dentro do meu próprio coração
quem há de procurá-las tão a fundo?
Lutei sozinho contra o pior dos rivais, meu espelho se quebrou
Não sei se ganhei, se perdi, não sei onde estava a origem de tudo
Dentro, fora, preso, liberto, quem saberia, eu, muito menos.
Minha vida passava na janelinha do trem, que peguei sem rumo
Sem saber em qual parada descer, dei voltas ao redor de mim mesmo
As cores das paisagens passando rapidamente formaram um quadro abstrato
Belas cores misturadas, flores, pessoas, casas, cães, tudo, uma só paisagem colorida
Tinha me esquecido de como sabia pintar tão bem, quantos belos quadros fiz
Todos nas paredes que não sei mais onde estão, e se estão.
Tantas correntes, me desato, sigo até onde levar, me protejo do frio que nunca sinto?
Ando, sem rumo, da janela de meu trem, vejo as correntes ficarem, junto em uma das paradas
Minha liberdade, minha prisão, a cada parada, minhas historias e poesias
Vejo tudo, sentado, pensando e imaginando
Quando sujaria novamente meu corpo com as cores das paisagens
Até quando percorreria uma distancia finita entre eu e minha historia
Onde derramaria minhas palavras e quais ouvidos seriam regados
De tudo isso, quais encantos brotariam
Tudo então, seria novamente, uma nova galeria, em uma das estações,
quantas mais primaveras ou invernos, quantas cores, quantas flores
E claro, ficaria ainda imaginando,
Quais seriam, o que diriam, e claro, em qual nova parede ficariam.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fidelidade, Fidel e sua Idade

Fidelidade. Fidel e sua idade. Posso fazer sim, uma analogia direta de Fidel, sua idade e a tal fidelidade. Fidel, firme e em seus conceitos, duro até o fim, não abriu as porteiras e se manteve incorruptível aos encantos externos, mesmo em dificuldades, mesmo que em contenção, o brilho e glamour oferecido não foram páreos para convencer o velho guerreiro a se desvencilhar de seus propósitos durante tanto tempo, tantos anos. Duvido eu que tenha sido fácil, mesmo que contrastante com o resto do mundo, sob inacabáveis criticas e bombardeios de todo o mundo capitalista, ali, Fidel, e sua idade, foram fortes o suficiente para seguras às pontas, os meios e tecer uma historia que perduraria a eternidade. Bem, indo ao ponto, a fidelidade, não nos parece com esta historia, o que se espera desta palavra, acho eu que foi inspirada em Fidel, uma vez que quem toca em fidelidade espera, durabilidade, força de vontade, que a outra ponta do par mesmo que por inúmeras dificuldades e tentações, mantenha firme o objetivo central do objeto em questão, o relacionamento. Quantos são como Fidel? Quantos são fieis. Fieis aos princípios próprios, ao amor, a alguém? Em tempos de paz, ser fiel e Fidel são coisas praticáveis, plausíveis, plenamente suportáveis, mas e em tempos de guerra, ir a luta, e não se ferir, não trair a base, mesmo que com sólidos argumentos, falta ou caso de morte! O homem precisa de muito menos para não manter a sua fidelidade. Em meu conceito, o caráter é sim, flexível e o sentimento mutável, impossível de se garantir algo que não faz parte da natureza humana, logo, creio ser hipocrisia prometer algo eterno, mas podemos sim, dar garantias reais, que enquanto durar, sim, seremos eternos. A eternidade dentro de um espaço de tempo, bonito isso, acho que dá para vender em garrafinhas. O termo já não é mais tão terno, a ternura se foi, junto com o amor do século dezenove. Hoje ser fiel ou ser Fidel, virou démodé, antiquado e bem dizer coisa de outro mundo. A corrente globalizada mostrou que o paraíso existe, com cores e Out Dors, MC Donalds, letreiros e luminosos, o dólar, e na outra ponta, o melhor, o homem ou a mulher mais encantadora, o sexo, a volúpia que nos faz volátil, e pronto, foi-se para o espaço Fidel, e junto à fidelidade. O mundo girou, o tempo passou e os cubanos mesmo com tantas melhores ofertas, entenderam para si, que ali estava bom, dentro do que esperavam e queriam, mesmo que fora dos padrões e modelos mundiais, chegaram à conclusão de manter Fidel, e Fidel de manter sua posição perante seu povo. E com o homem, não seria diferente, a questão fidelidade, vai da posição do individuo de aceitar para si, que bastou, que se satisfez, dentro de nossa natureza mutante e variável, somos seres imbuídos de uma insatisfação infinita. Pessoas melhores virão, mais inteligentes, melhores em sexo, mais belas, melhores propostas, mas cabe a nós saber quando e onde parar, afinal, o mundo e o tempo não param, e sim, sempre nos coloca diante de novas e infinitas possibilidades de mudança. A questão em meu ponto de vista é saber então, o que e quando esta realmente bom para mim e ponto, a partir deste ponto, desenvolver todas as possibilidades dentro da possibilidade que escolhi para apostar e desenvolver meu universo dentro dos parâmetros que defini como mundo meu. Tudo bem, utopia, pode ser, mas é um modelo ideal para a satisfação daqueles que buscam sempre e eternamente o melhor. Mas sim, sendo realista, vejo claramente, que como Fidel, a fidelidade esta acompanhando seu melhor exemplo, que hoje, entre paradas na UTI e intermediando seu pulso firme ao povo, esta deixando este universo com todo ar de quem fez a sua parte, mas abre agora as portas para o que esta por vir. Bom ou ruim, não sei, cabe a cada um saber se o que temos nos basta, se não, que venha a América então. Não existem prejuízos visíveis, somos calculo absoluto dos números que nós criamos, matematicamente falando qualquer resultado, foi previsto na criação dos fatores envolvidos, de fato então o que resta é decidir entre as possibilidades possíveis e existentes, lamento dizer, mas, são infinitas. Boa sorte.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Hoje eu queria

Hoje eu queria ser aquele que sabe aonde vai e onde pisa. Hoje eu queria ser aquele que tem um caminho traçado e segue apenas pela via principal, não busca vias paralelas onde tudo foge do controle e pouca coisa é real. Hoje eu queria ser aquele que nada espera além daquilo que é do seu alcance. Hoje eu queria ser aquele que tem preguiça e medo de lutar. Hoje eu queria ser aquele que acredita que não podemos nada além disso que aí está. Hoje eu queria ser você! Que não luta por que não tem tempo, que acha que faz o máximo que pode. Que não tem tempo para as bobagens da vida. Hoje eu queria ser a formiga. Que trabalha sem questionar o porquê de juntar tanta comida já que o inverno acaba bem mais cedo que os mantimentos. Hoje eu não queria ser a cigarra. Que acredita no seu canto e está disposta a passar fome e frio para defender sua história. Hoje eu queria ser aquele que senta domingo à tarde e vê tv, porque é domingo e não vale a pena cansar e perder o começo da semana. Hoje eu queria ser aquele que acredita que semanas começam. Hoje eu queria não ser aquele que só acredita em semanas que acabam, que só acredita em noites que chegam e em histórias que fazem dar um nó na garganta no final. Hoje eu queria ser aquele que acredita que tudo acaba na última linha e que não precisamos mais de nada depois do “felizes para sempre”. Hoje eu queria ser aquele que está morto e ainda vive. Hoje eu queria ser aquele que vive a vida dos outros. Hoje eu queria ser aquele que acredita que não estamos aqui por nada além do que os arautos de deus nos disseram. Hoje eu queria poder curar minhas dores com mercúrio cromo e não com teclados e telas. Hoje eu queria não acreditar em mim e em todas essas pessoas loucas que me acompanham. Hoje eu queria ser você! Que acha que tudo é normal. Que acha que o mundo não precisa te dar frios na barriga. Que acha que nunca poderemos ser alegres, nem tristes. Hoje eu queria ser você! Que ri quando é questionado. Que acredita que é feliz porque conseguiu mais do que precisa. Hoje eu queria ser você! E deixar que os ratos roessem todos os meus tesouros. Que vive num mundo real em que nada é inconstante. Hoje eu não queria saber escrever e trabalhar em obras. Hoje eu não queria. Não queria que fosse hoje. Não queria que você fosse você, nem que eu fosse eu. Hoje não queria saber que existe outro lugar, com outras pessoas que me chamam quando tudo no mundo parece estar errado. Não queria viver em dias como hoje. Vou voltar para meu mudo inconstante. Hoje foi um dia muito aflitivo, não posso ser alegre o tempo inteiro, mas essa vontade de ser você é extenuante. Agora preciso ir embora, recuperar a vontade de ser eu. Recuperar a consciência de ser estranho. Voltar para mim.

terça-feira, 17 de março de 2015

O brilho dos olhos

Sonhos e ruas monocromáticas acompanham minha caminhada silenciosa ao som propagado no vácuo de minha vasta memória de vidas e momentos termináveis e passados. As luzes baixas contrastam com o brilho vivo de meus olhos e minha cabeça abaixada enquanto caminho, tem meu rosto coberto pela sombra do chapéu que cobre meus cabelos grisalhos. Minha capa é velha, mas me cobre do frio das ruas úmidas deste lugar que não sei bem onde é. Não entendo muito bem aquelas coisas flutuando a minha volta, são telas com momentos em que vivi, bons, ruins, todos, me dei conta, estou em um sonho, e curioso sigo. Percebo meus sapatos, são amarelos vivos, e definitivamente são as únicas cores vivas que tem em todo cenário, percebo então que lembrei do que uma amiga disse a muitos anos, que se as pessoas não estivessem interessadas em colorir o mundo, usaria sapatos coloridos e por onde pisasse faria sua parte em colorir pedacinhos por ai do universo. Era claro então, minha vida em preto e branco não foi suficiente para sufocar minha vontade de caminhar, conhecer, iluminar a escuridão com o brilho de meus olhos, e colorir pedacinhos de universo soltos a minha volta e fazer cinema de tudo que não tinha graça. Era um sonho de tantos outro que tenho acordado, desta vez dormia, mas para variar, de tanta intensidade, meus sonhos eram continuação de meu dia, e vice e versa, sempre assim, claro, levado por descrédito por tantos próximos que aprendi a ser distante de tantos quantos fossem eles. Levei meus passos e toquei cada tela flutuante que se apresentava ao caminho, tinham gosto, cheiros, texturas as quais havia me esquecido, mas que curiosamente faziam parte de quem sou hoje, um homem construído de falidas memórias ausentes mas vivas e presentes na carne, nos músculos, nas atitudes e no brilho incessível destes olhos caídos e duros que não se deixam vencer por tantas e quais queres mar de lagrimas provindos sejam de onde for. Acabam-se as telas e estranhamente ouço um silencio vindo de um absoluto escuro a minha frente, onde termina o caminho, negro absoluto, vácuo de todo querer, nada se propagava ali, nada. Paro alguns segundo a frente do breu e do desconhecido. Penso, lembro do que não lembraria em hipótese alguma, e canso de tentar, não haveria resposta, não ali. Faço então na verdade o que sempre haveria de ter feito, dou o passo a frente e me jogo a escuridão absoluta, e se me perguntarem porque o fiz, a resposta é muito fácil, como saber se o brilho de meus olhos iluminaria uma nova tela flutuante de momentos em minha vida se não o tivesse feito, cai por um tempo, mas ali, no breu de meu medo, sobrevivi e vi que minha luz e brilho não cessariam ao pudor de qualquer sobra que pairasse sobre mim alem da do meu chapéu. Fui alem novamente, e por ai ainda caminho, buscando novos fins de estradas com novos breus a serem iluminados.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Vida que passa

Vida que vem, vida que vai, vida que chega, vida que se esvai. Do nascer ao morrer o tempo é tão curto que mau percebemos que em dois ou três passos percorremos todo o caminho em soluço só. Acompanhados ou sozinhos, assim fazemos, quase que sempre da mesma forma, se algo muda, são pequenas imperceptíveis alterações de destino causados por meros acasos em nossas vidas. É necessário parar o tempo em bons momentos para poder dar uma esticada para quatro ou cinco passos. Seguimos quase que a maioria das vezes sozinhos, mesmo quando achamos estar acompanhados. As magoas da alma choram sozinhas em um canto qualquer de nosso coração. Seguimos assim, sempre. Coragem, força, aos olhos mais perspicazes, o punho fechado pronto a luta, e cerrando os dedos de forma a segurar a areia desta ampulheta de forma rija e então represar todas as coisas boas, como quem deixa a sobremesa para o final que chega rapidamente. Tão longo é o caminho, tantas línguas a se aprender, a impressão que tenho é que sempre chegamos ao final sem se quer sermos entendidos, torre de Babel estas vidas que não se falam. Difícil é se fazer entender, aos prantos, a serenidade, a mímica, o desenho, o explicar, o grito, o brado, nada basta, mesmo assim somos nós mesmo ali sozinhos e caminhando. Penso, penso e penso, tento fazer-me compreender, e olhe, como fracasso nesta missão impossível. Meu coração se cala não por falta de palavras, mas por falta de saber expressar das mais variadas formas sua forma inexplicável de viver e existir. Hoje me vejo em um espelho distorcido, que não mostra mais o que tenho certeza que ainda esta ali, vivo e latente. Me aprisiono diariamente em frases prontas e refeitas para me enfeitiçar. Tenho grades imaginarias ao meu redor prendendo tudo aquilo que não convém gritar ao universo. Suplico aos deuses, ao mundo, ao homem, que dor é esta que não se cura, que difícil é caminhar tanto em tão pouco tempo e em um respirar, pronto, tudo se acaba, se vai, e claro, aos que não foram cautelosos, posso dizer a maioria, o pensamento final é sempre o mesmo. Poderia então ter feito mais, fazer diferente, mudar tudo, plenos covardes inertes e sustentáveis por algo que criamos, uma vida em moldes prontos. Seria de se prever tudo isso, a moda passa, muda, as roupas deixam de cair bem com o passar das culturas, por que não haveria de ser diferente a todos nós, usando velhos moldes de vida de pessoas e pessoas que absolutamente não sabem o que foram e quem somos nós. Como podemos jogar fora a luz esplendorosa da vida em troca de quireras mesquinhas feitas de ouro de tolo. Tantos pares impares, tantos cálculos sem resultado. Sim, é verdade, minha verdade que o que passa é passado, e nos trancafiamos em nós mesmos por medo de perceber que ainda havia tempo. Sonhamos e criamos mundos e universos libertos de tudo e todos, mas presos em um curto período de ser e estar. O assunto é muito complexo para tentar expor em apenas um pequeno texto expressivo. Baseio em mim meus comentários que tive uma vida agitada e atribulada, cheia de altos e baixos, confusa e de uma eterna espera por um final perfeito. Aconselho aos navegantes que não mais esperem, que busquem de peito aberto seja qual for o velocino de ouro. Esperei, esperei, esperei e esqueci que o tempo passava. Dei meus três passos, agora, vejo com cuidado os poucos próximos, na verdade, penso e quero muito, saltar a frente, e seja como for, do jeito que for, estar sempre, a frente de meu próprio tempo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Quando os sonhos se despedaçam

Acabou. Acordei. Fechei a conta e sai do bar, com a luz do sol a cegar minhas solidas e dilatadas pupilas sob efeito de tantas coisas que não conseguiria enumerar aqui. Alguns diriam que estaria ali surtado, outros, pior, alguns poucos me dariam boas novas e boas vindas ao mundo meu, e real, claro, minha realidade. Uma vida de sonhos, um sonhador puro sangue, se houvesse algum sangue nestas veias. Meu corpo andava já no automático a tempos, ainda anda. Segui mais alguns passos e na verdade não sabia para onde ir, não dava a mínima para dizer a verdade. Falando em verdade, quem diz afinal, acredito que tudo o que dizemos no fim de qualquer conta em qualquer boteco ou restaurante elegante, é mentira, a verdade é que todos mentem. Construímos nossos sonhos, ilusões, fugas, sempre com seus pilares aterrados em motivos que justificam nossas chacinas imorais, amorais, em solos nobres e floridos, cheios de crença, amor, pudor, futuro, ao diabo com tudo isso. Deixe me ser que sou, o resto do sonho despedaçado e desbotado dentro de uma jaqueta velha e cheirando a maconha, bebida e cigarro, meu perfume, ainda ali, marcando uma personalidade duvidosa. Sonhos se vão, pesadelos vem, por vezes em ciranda trocam, e a única forma de ficar livre dos dois, é acordando, fechando as portas para a viagem da imaginação e sucumbir ao desencanto cruel da realidade. Estamos todos mortos, nos falta apenas saber o dia que vamos confeccionar os convites a celebração, ao evento, ao velório. Velório, velar, fim da conta de vez, e ainda sim, nos damos tempo de perder todo nosso tempo em futilidades e sonhos infundados, motivos tolos, pessoas, bem, as pessoas, nada posso dizer, sou uma delas. Mas porque não viver a realidade em sua dolorida situação atual, deixar sonhos, pesadelos, pinturas e rabiscos esboçados por nossa imaginação para curtir a longo tempo nossa covardia de enfrentar a realidade que leva sim ao prazer de ser o que se é, mas junto, deixamos de ser tudo o que sonhávamos ser. Loucura, dúbio, disseram, falácias, maldiçoes,até bruxarias e queime tudo no inferno. Saí na rua enfim, a viagem estava passando, na verdade, não havia diferença alguma, a forma que via o mundo são era a mesma da outra forma. Percebi, parei e sentei na calçada, porque o mundo foi e é assim, lamurias de uma puta depois da orgia. Mas resolvi lamuriar então. Pensei, que na sujeira da realidade, no esgoto da moral humana, no não querer do fazer por prazer, ainda sim, havia em minha vontade, longe de qualquer realidade, amor, um brilho distante mas ainda palpável as minhas mãos sujas do sangue e da dor do universo que matei a segundos e ressuscitei para poder matá-lo mais e mais vezes, mas ainda, foquei e não dispersei minha visão, via a luz, em forma de vida, de morte, podia tocá-la, brilhava como ouro, levantei, não sucumbi ao podre que caia puxando minha carne ao chão, e andei, abracei a luz, o ouro, ali, outra vez, percebi, ouro de tolo, pedra bruta feita por minha imaginação e brilho cintilante da esperança de mudar. Não percebi, não havia acordado, novamente, estava sonhando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dia que nasceu

Hoje o dia nasceu, não ficou morto atrás das nuvens, das pessoas que partiram ou das que estão ao nosso lado e não decidiram viver ainda. Hoje o dia nasceu e não trouxe nada de extraordinário. Apenas lembranças antigas, rostos que antes significavam histórias e que hoje são apenas rostos. Estranho esse aconchego que dias assim trazem, um sono exagerado, uma preguiça infindável e um cheiro de algo que nos abandona. Ouvi uma música em que diz que é muito mais difícil dizer adeus quando não temos mais nada a dizer. Tenho que discordar. Melhor assim, por que depois do adeus podemos simplesmente olhar para aquele rosto que agora é apenas mais um rosto e sentir algo de novo, algo incerto, algo fugaz. O dia de hoje trouxe um adeus onde não se tinha mais nada a dizer. Levou embora uma história de um rosto e com ela dezenas de feridas que estavam abertas e insistiam em doer. O dia de hoje me trouxe algo de muito ordinário, a calma de um dia em que não se tem nada a fazer, há não ser viver. Calma que há muito não sentia, que há muito tentava não sentir, que a muito me fugia, como eu fugia dela, e que sem perceber a encontrei num meio fio de uma rua qualquer. A calma estava lá, esperando para me dizer olá, junto com o rosto que esperava para me dizer adeus. Hoje me sinto uma tonelada mais leve. Uma tonelada de linhas por escrever me abandonou, uma tonelada de lágrimas que eu deveria chorar, mas que nunca choraria me abandonou. Uma tonelada de histórias tristes com personagens soturnos me abandonou, me disseram adeus porque não tinha mais nada a dizer. Estou uma tonelada mais leve. Tudo isso num dia que agora diz adeus por que já disse que tudo que tinha para dizer.