domingo, 22 de fevereiro de 2015

Quando os sonhos se despedaçam

Acabou. Acordei. Fechei a conta e sai do bar, com a luz do sol a cegar minhas solidas e dilatadas pupilas sob efeito de tantas coisas que não conseguiria enumerar aqui. Alguns diriam que estaria ali surtado, outros, pior, alguns poucos me dariam boas novas e boas vindas ao mundo meu, e real, claro, minha realidade. Uma vida de sonhos, um sonhador puro sangue, se houvesse algum sangue nestas veias. Meu corpo andava já no automático a tempos, ainda anda. Segui mais alguns passos e na verdade não sabia para onde ir, não dava a mínima para dizer a verdade. Falando em verdade, quem diz afinal, acredito que tudo o que dizemos no fim de qualquer conta em qualquer boteco ou restaurante elegante, é mentira, a verdade é que todos mentem. Construímos nossos sonhos, ilusões, fugas, sempre com seus pilares aterrados em motivos que justificam nossas chacinas imorais, amorais, em solos nobres e floridos, cheios de crença, amor, pudor, futuro, ao diabo com tudo isso. Deixe me ser que sou, o resto do sonho despedaçado e desbotado dentro de uma jaqueta velha e cheirando a maconha, bebida e cigarro, meu perfume, ainda ali, marcando uma personalidade duvidosa. Sonhos se vão, pesadelos vem, por vezes em ciranda trocam, e a única forma de ficar livre dos dois, é acordando, fechando as portas para a viagem da imaginação e sucumbir ao desencanto cruel da realidade. Estamos todos mortos, nos falta apenas saber o dia que vamos confeccionar os convites a celebração, ao evento, ao velório. Velório, velar, fim da conta de vez, e ainda sim, nos damos tempo de perder todo nosso tempo em futilidades e sonhos infundados, motivos tolos, pessoas, bem, as pessoas, nada posso dizer, sou uma delas. Mas porque não viver a realidade em sua dolorida situação atual, deixar sonhos, pesadelos, pinturas e rabiscos esboçados por nossa imaginação para curtir a longo tempo nossa covardia de enfrentar a realidade que leva sim ao prazer de ser o que se é, mas junto, deixamos de ser tudo o que sonhávamos ser. Loucura, dúbio, disseram, falácias, maldiçoes,até bruxarias e queime tudo no inferno. Saí na rua enfim, a viagem estava passando, na verdade, não havia diferença alguma, a forma que via o mundo são era a mesma da outra forma. Percebi, parei e sentei na calçada, porque o mundo foi e é assim, lamurias de uma puta depois da orgia. Mas resolvi lamuriar então. Pensei, que na sujeira da realidade, no esgoto da moral humana, no não querer do fazer por prazer, ainda sim, havia em minha vontade, longe de qualquer realidade, amor, um brilho distante mas ainda palpável as minhas mãos sujas do sangue e da dor do universo que matei a segundos e ressuscitei para poder matá-lo mais e mais vezes, mas ainda, foquei e não dispersei minha visão, via a luz, em forma de vida, de morte, podia tocá-la, brilhava como ouro, levantei, não sucumbi ao podre que caia puxando minha carne ao chão, e andei, abracei a luz, o ouro, ali, outra vez, percebi, ouro de tolo, pedra bruta feita por minha imaginação e brilho cintilante da esperança de mudar. Não percebi, não havia acordado, novamente, estava sonhando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dia que nasceu

Hoje o dia nasceu, não ficou morto atrás das nuvens, das pessoas que partiram ou das que estão ao nosso lado e não decidiram viver ainda. Hoje o dia nasceu e não trouxe nada de extraordinário. Apenas lembranças antigas, rostos que antes significavam histórias e que hoje são apenas rostos. Estranho esse aconchego que dias assim trazem, um sono exagerado, uma preguiça infindável e um cheiro de algo que nos abandona. Ouvi uma música em que diz que é muito mais difícil dizer adeus quando não temos mais nada a dizer. Tenho que discordar. Melhor assim, por que depois do adeus podemos simplesmente olhar para aquele rosto que agora é apenas mais um rosto e sentir algo de novo, algo incerto, algo fugaz. O dia de hoje trouxe um adeus onde não se tinha mais nada a dizer. Levou embora uma história de um rosto e com ela dezenas de feridas que estavam abertas e insistiam em doer. O dia de hoje me trouxe algo de muito ordinário, a calma de um dia em que não se tem nada a fazer, há não ser viver. Calma que há muito não sentia, que há muito tentava não sentir, que a muito me fugia, como eu fugia dela, e que sem perceber a encontrei num meio fio de uma rua qualquer. A calma estava lá, esperando para me dizer olá, junto com o rosto que esperava para me dizer adeus. Hoje me sinto uma tonelada mais leve. Uma tonelada de linhas por escrever me abandonou, uma tonelada de lágrimas que eu deveria chorar, mas que nunca choraria me abandonou. Uma tonelada de histórias tristes com personagens soturnos me abandonou, me disseram adeus porque não tinha mais nada a dizer. Estou uma tonelada mais leve. Tudo isso num dia que agora diz adeus por que já disse que tudo que tinha para dizer.