quarta-feira, 18 de março de 2015

Hoje eu queria

Hoje eu queria ser aquele que sabe aonde vai e onde pisa. Hoje eu queria ser aquele que tem um caminho traçado e segue apenas pela via principal, não busca vias paralelas onde tudo foge do controle e pouca coisa é real. Hoje eu queria ser aquele que nada espera além daquilo que é do seu alcance. Hoje eu queria ser aquele que tem preguiça e medo de lutar. Hoje eu queria ser aquele que acredita que não podemos nada além disso que aí está. Hoje eu queria ser você! Que não luta por que não tem tempo, que acha que faz o máximo que pode. Que não tem tempo para as bobagens da vida. Hoje eu queria ser a formiga. Que trabalha sem questionar o porquê de juntar tanta comida já que o inverno acaba bem mais cedo que os mantimentos. Hoje eu não queria ser a cigarra. Que acredita no seu canto e está disposta a passar fome e frio para defender sua história. Hoje eu queria ser aquele que senta domingo à tarde e vê tv, porque é domingo e não vale a pena cansar e perder o começo da semana. Hoje eu queria ser aquele que acredita que semanas começam. Hoje eu queria não ser aquele que só acredita em semanas que acabam, que só acredita em noites que chegam e em histórias que fazem dar um nó na garganta no final. Hoje eu queria ser aquele que acredita que tudo acaba na última linha e que não precisamos mais de nada depois do “felizes para sempre”. Hoje eu queria ser aquele que está morto e ainda vive. Hoje eu queria ser aquele que vive a vida dos outros. Hoje eu queria ser aquele que acredita que não estamos aqui por nada além do que os arautos de deus nos disseram. Hoje eu queria poder curar minhas dores com mercúrio cromo e não com teclados e telas. Hoje eu queria não acreditar em mim e em todas essas pessoas loucas que me acompanham. Hoje eu queria ser você! Que acha que tudo é normal. Que acha que o mundo não precisa te dar frios na barriga. Que acha que nunca poderemos ser alegres, nem tristes. Hoje eu queria ser você! Que ri quando é questionado. Que acredita que é feliz porque conseguiu mais do que precisa. Hoje eu queria ser você! E deixar que os ratos roessem todos os meus tesouros. Que vive num mundo real em que nada é inconstante. Hoje eu não queria saber escrever e trabalhar em obras. Hoje eu não queria. Não queria que fosse hoje. Não queria que você fosse você, nem que eu fosse eu. Hoje não queria saber que existe outro lugar, com outras pessoas que me chamam quando tudo no mundo parece estar errado. Não queria viver em dias como hoje. Vou voltar para meu mudo inconstante. Hoje foi um dia muito aflitivo, não posso ser alegre o tempo inteiro, mas essa vontade de ser você é extenuante. Agora preciso ir embora, recuperar a vontade de ser eu. Recuperar a consciência de ser estranho. Voltar para mim.

terça-feira, 17 de março de 2015

O brilho dos olhos

Sonhos e ruas monocromáticas acompanham minha caminhada silenciosa ao som propagado no vácuo de minha vasta memória de vidas e momentos termináveis e passados. As luzes baixas contrastam com o brilho vivo de meus olhos e minha cabeça abaixada enquanto caminho, tem meu rosto coberto pela sombra do chapéu que cobre meus cabelos grisalhos. Minha capa é velha, mas me cobre do frio das ruas úmidas deste lugar que não sei bem onde é. Não entendo muito bem aquelas coisas flutuando a minha volta, são telas com momentos em que vivi, bons, ruins, todos, me dei conta, estou em um sonho, e curioso sigo. Percebo meus sapatos, são amarelos vivos, e definitivamente são as únicas cores vivas que tem em todo cenário, percebo então que lembrei do que uma amiga disse a muitos anos, que se as pessoas não estivessem interessadas em colorir o mundo, usaria sapatos coloridos e por onde pisasse faria sua parte em colorir pedacinhos por ai do universo. Era claro então, minha vida em preto e branco não foi suficiente para sufocar minha vontade de caminhar, conhecer, iluminar a escuridão com o brilho de meus olhos, e colorir pedacinhos de universo soltos a minha volta e fazer cinema de tudo que não tinha graça. Era um sonho de tantos outro que tenho acordado, desta vez dormia, mas para variar, de tanta intensidade, meus sonhos eram continuação de meu dia, e vice e versa, sempre assim, claro, levado por descrédito por tantos próximos que aprendi a ser distante de tantos quantos fossem eles. Levei meus passos e toquei cada tela flutuante que se apresentava ao caminho, tinham gosto, cheiros, texturas as quais havia me esquecido, mas que curiosamente faziam parte de quem sou hoje, um homem construído de falidas memórias ausentes mas vivas e presentes na carne, nos músculos, nas atitudes e no brilho incessível destes olhos caídos e duros que não se deixam vencer por tantas e quais queres mar de lagrimas provindos sejam de onde for. Acabam-se as telas e estranhamente ouço um silencio vindo de um absoluto escuro a minha frente, onde termina o caminho, negro absoluto, vácuo de todo querer, nada se propagava ali, nada. Paro alguns segundo a frente do breu e do desconhecido. Penso, lembro do que não lembraria em hipótese alguma, e canso de tentar, não haveria resposta, não ali. Faço então na verdade o que sempre haveria de ter feito, dou o passo a frente e me jogo a escuridão absoluta, e se me perguntarem porque o fiz, a resposta é muito fácil, como saber se o brilho de meus olhos iluminaria uma nova tela flutuante de momentos em minha vida se não o tivesse feito, cai por um tempo, mas ali, no breu de meu medo, sobrevivi e vi que minha luz e brilho não cessariam ao pudor de qualquer sobra que pairasse sobre mim alem da do meu chapéu. Fui alem novamente, e por ai ainda caminho, buscando novos fins de estradas com novos breus a serem iluminados.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Vida que passa

Vida que vem, vida que vai, vida que chega, vida que se esvai. Do nascer ao morrer o tempo é tão curto que mau percebemos que em dois ou três passos percorremos todo o caminho em soluço só. Acompanhados ou sozinhos, assim fazemos, quase que sempre da mesma forma, se algo muda, são pequenas imperceptíveis alterações de destino causados por meros acasos em nossas vidas. É necessário parar o tempo em bons momentos para poder dar uma esticada para quatro ou cinco passos. Seguimos quase que a maioria das vezes sozinhos, mesmo quando achamos estar acompanhados. As magoas da alma choram sozinhas em um canto qualquer de nosso coração. Seguimos assim, sempre. Coragem, força, aos olhos mais perspicazes, o punho fechado pronto a luta, e cerrando os dedos de forma a segurar a areia desta ampulheta de forma rija e então represar todas as coisas boas, como quem deixa a sobremesa para o final que chega rapidamente. Tão longo é o caminho, tantas línguas a se aprender, a impressão que tenho é que sempre chegamos ao final sem se quer sermos entendidos, torre de Babel estas vidas que não se falam. Difícil é se fazer entender, aos prantos, a serenidade, a mímica, o desenho, o explicar, o grito, o brado, nada basta, mesmo assim somos nós mesmo ali sozinhos e caminhando. Penso, penso e penso, tento fazer-me compreender, e olhe, como fracasso nesta missão impossível. Meu coração se cala não por falta de palavras, mas por falta de saber expressar das mais variadas formas sua forma inexplicável de viver e existir. Hoje me vejo em um espelho distorcido, que não mostra mais o que tenho certeza que ainda esta ali, vivo e latente. Me aprisiono diariamente em frases prontas e refeitas para me enfeitiçar. Tenho grades imaginarias ao meu redor prendendo tudo aquilo que não convém gritar ao universo. Suplico aos deuses, ao mundo, ao homem, que dor é esta que não se cura, que difícil é caminhar tanto em tão pouco tempo e em um respirar, pronto, tudo se acaba, se vai, e claro, aos que não foram cautelosos, posso dizer a maioria, o pensamento final é sempre o mesmo. Poderia então ter feito mais, fazer diferente, mudar tudo, plenos covardes inertes e sustentáveis por algo que criamos, uma vida em moldes prontos. Seria de se prever tudo isso, a moda passa, muda, as roupas deixam de cair bem com o passar das culturas, por que não haveria de ser diferente a todos nós, usando velhos moldes de vida de pessoas e pessoas que absolutamente não sabem o que foram e quem somos nós. Como podemos jogar fora a luz esplendorosa da vida em troca de quireras mesquinhas feitas de ouro de tolo. Tantos pares impares, tantos cálculos sem resultado. Sim, é verdade, minha verdade que o que passa é passado, e nos trancafiamos em nós mesmos por medo de perceber que ainda havia tempo. Sonhamos e criamos mundos e universos libertos de tudo e todos, mas presos em um curto período de ser e estar. O assunto é muito complexo para tentar expor em apenas um pequeno texto expressivo. Baseio em mim meus comentários que tive uma vida agitada e atribulada, cheia de altos e baixos, confusa e de uma eterna espera por um final perfeito. Aconselho aos navegantes que não mais esperem, que busquem de peito aberto seja qual for o velocino de ouro. Esperei, esperei, esperei e esqueci que o tempo passava. Dei meus três passos, agora, vejo com cuidado os poucos próximos, na verdade, penso e quero muito, saltar a frente, e seja como for, do jeito que for, estar sempre, a frente de meu próprio tempo.