A ordem do dia é falar sobre o buraco. O buraco que engole meros transeuntes, o buraco por onde a água e a lama passam, arrastando outros transeuntes, levando também os seus pertences, o buraco existente no radar que controla os aviões que caem na selva, com transeuntes aéreos. Há buracos demais por aí.
Há buracos nas calçadas, no esgoto do lado do posto, nos arremendos da grande avenida. Há buracos no telhado da escola, no quadro de professores, nos cérebros dos pedagogos. Há buracos nas roupas, buracos nas paredes do barraco, buracos, vazios, no armário onde se guardam os mantimentos. Há buracos na linguagem, há buracos nas relações, há buracos nas famílias, há buracos feitos à bala, diariamente, há muito outros buracos que ceifam as vidas...
Mas quase ninguém enxerga a cratera, rainha de todos esses buracos da condição humana. Quem a construiu? Por que quase ninguém toma a atitude de tampá-la?
Qual o tamanho do diâmetro que causa a separação entre a vida, bem maior, e a morte, colhida por conta de meros desejos de lucro econômico?
Há uma cratera em cada um de nós e achamos que estamos completos ao enveredarmos nas vagas opiniões sobre muros que tapam outros buracos, sobre unidades prisionais construídas, buracos onde se jogam vidas esburacadas.
Este é um momento de Crateras, de desmoronamentos de sonhos, de esburacar a esperança.
Antes o poeta dizia que havia uma pedra no caminho. Quem dera fosse apenas uma pedra, pequeno empecilho. Agora até a pedra também é tragada pelos entulhos desta miséria moral, econômica e existencial desta era de vácuos pessoais.
O sistema parece não ter buracos, mas as crateras que ele nos causa no dia-a-dia ainda fará com que estes vazios sejam preenchidos pelo novo que, como diz outro poeta, sempre vem.
Mas até lá, que possamos nos dar conta de que nossas opiniões nesse buraco virtual não movem um grão sequer de areia que preencha os vácuos que estão ao nosso redor. A opinião vazia é ainda pior do que o silêncio que esburaca esta vida.
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