quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Mundo novo

O mundo mudou! Ontem, hoje e sempre. O mundo sempre muda, sempre se abre uma brecha no meio da loucura do dia, sempre se abre uma brecha no meio do tédio do dia. Sempre uma luz se faz presente no dia de cada um, sempre alguém nos olha de uma forma em que nada mais podia ficar no lugar. Sempre acontece alguma coisa naquela esquina diferente em que você vira, ou naquele cigarro que você nunca fuma e que por motivo algum resolveu fumar. Todos os dias o mundo muda a nossa volta, mas estamos tão preocupados em não nos deixar enganar, em não cair, em não nos machucar. Preocupamos-nos tanto com aquela cordinha ínfima e pequeninha que nos agarramos, nos apegamos tanto as migalhas que estamos acostumados a receber da vida, que não percebemos que ela nos oferece apenas pedaços inteiros e se nos caem migalhas, é porque ficamos esperando aqueles que realmente se arriscam viver. E são dessas migalhas que vivemos. Da música que alguém ousou fazer e gravar, do livro que alguém ousou escrever e publicar. E são nessas pessoas que vivem que jogamos pedras quando queremos falar que nossa vida é boa, quando queremos provar para nós e para os outros pobres coitados que estão ao nosso lado que nossa vida é boa e que nossos dias são plenos. E atiramos pedras neles, porque somos covardes demais para nos castigar ou para mudar de vida. Somos covardes e apegados demais, somos desesperados por juntar migalhas, olhamos fixamente para o chão procurando moedas enferrujadas e esquecemos do céu infinito, das possibilidades inesgotáveis do poder criador e da força interna que nos mantém em pé apesar de todas as dificuldades. E choramos com o rosto no meio das pernas, porque além de tudo, ainda temos medo e vergonha de demonstrar que somos humanos. Enquanto quisermos ser perfeitos, enquanto quisermos ser máquinas que não erram, que não tentam, que não repetem, enquanto quisermos ser apanhadores de migalhas, enquanto quisermos nos ajoelhar por migalhas, não conseguiremos ver a brecha do mundo, não conseguiremos ver que o mundo mudou enquanto você eu nos agarrávamos um no outro para não cair. Porque não queríamos acreditar que esse tombo seria o começo de uma nova vida, o começo de um novo mundo, o começo de um novo começo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

.44 Caliber Love Letter

Eu queria ser um príncipe. Não desses encantados, que beijam as donzelas, que galopam em belíssimos cavalos brancos, não. Apenas queria ser príncipe. Queria ser como é o herdeiro do trono da Inglaterra, o príncipe Charles. Ser capaz de entronar uma senhora simples e revesti- la do esplendor principesco a que está sujeito o império britânico. Poder traduzir em ações, para que o mundo inteiro veja que, a mulher que eu escolhi é digna da coroa. É princesa por natureza. Não precisa de retoques, de artimanhas, de vestidos caros para que seu brilho seja notado. Nestes casos o brilho seria do parlamento e não dela. Ela é cheia de brilho natural. Brilham seus olhos castanhos, seu sorriso, seu caminhar delicado, embora sua postura seja firme e seus traços denotem autoridade. Mas, de forma natural. Um poder nato dos que nascem para dominar situações, lugares, grupos de pessoas, e todo tipo de coisa em que a presença do líder é e se faz necessária. Mas, não o líder na pessoa do dominador, do opressor e sim a liderança cautelosa, zelosa, prestativa, que ampara, que educa, que ouve e sabe sempre o que dizer, que doa de si. Ela tem o dom de se fazer entender, sem se fazer notar. Ela é discreta e recatada, não faz alarde, não tem vozearia ao seu redor. Ela é maior do que eu, não na estatura mas, sim no caráter, na deferência, no seu estilo sutil de ser. Ela é algo de quimera, de utópico, alusivo aos contos de fada. Mas, ela existe sim. É real e tem nome. Chora, ri, se emociona como todas as pessoas, conta piada e se preciso for até briga. Com cuidado para não ferir, mas ela faz isso sim. Por isso eu a estimo tanto, eu a admiro, a respeito e a quero junto de mim. Eu deveria ter te conhecido há muitos anos, quando eu ainda tinha um sonho de construir uma casa na árvore e tentava conquistar amigos para me ajudarem a realizar este sonho de infância. Com certeza você teria me ajudado a construir aquela simples casa na árvore. Eu deveria ter te conhecido no meu primeiro dia de aula, quando eu olhei para as demais crianças e notei que todas pareciam tão tímidas. Eu queria ter brincado de “pique-esconde” contigo na infância, mas eu não te conheci naquele tempo. Daí agora me resta criar uma mitologia que nos insira de alguma forma no mesmo contexto, no tempo em que éramos crianças. Eu gostaria que você fosse a minha parceira na quadrilha que dancei aos seis anos de idade, mas você ainda não estava lá. Eu gostaria de ter te ensinado algum palavrão. Queria ter pulado Amarelinha contigo nos meus nove anos. Ah, ao teu lado eu queria ter rabiscado nossos nomes e nossos desenhos sem sentido no asfalto, mas como eu disse a pouco, você ainda não estava lá. Ah, talvez não houvesse tanta solidão no mundo se o mundo inteiro te conhecesse. Eu sou capaz de sentir o valor de um simples sorriso e o quanto este simples hábito humano é capaz de espantar pra longe a solidão. Existem pessoas capazes de sentir o que eu sinto graças a você. Algum sorriso despretensioso teu, já trouxe cores vivas ao meu horizonte. Eu queria ter aprendido o sentido de várias coisas ao teu lado. Descobrir juntos o sabor da amora. Aprender juntos o significado da palavra “coração”. Contar segredos bobos que nem deveriam ser segredos. Eu queria ter a sua presença nas minhas fotografias da infância. Imagine quantos “primeiros pedaços de bolo” você ganharia de mim em meus aniversários. Seriam vários. Eu queria ter andado contigo de bicicleta nas ruas esburacadas da nossa infância. Eu queria assistir a tua primeira formatura e teu aniversário de sete anos. Queria ter visto pessoalmente se você chorou ao arrancar o primeiro dente, caso você tivesse chorado, eu iria te abraçar e dizer que a dor passaria logo. Eu te daria os adesivos do meu caderno na terceira série. Eu te defenderia em todas as brigas. Eu te contaria os meus sonhos. Eu te falaria sobre todos os desenhos animados que eu assistia. Nós ficaríamos tristes por ter que se despedir todo fim de tarde. Eu acreditaria em anjos se eu tivesse te conhecido desde a minha infância. Por causa da tua existência, eu dormiria já pensando em acordar. Seria perfeito se você fosse mesmo o meu par na quadrilha da escola quando eu tinha apenas seis anos. Sentaríamos juntos no ônibus escolar lá na terceira série. Teríamos o mesmo medo de tirar notas baixas. Mas infelizmente não nos conhecemos antes. Hoje eu tenho pressa em terminar a faculdade e dependo de dinheiro para um monte de coisa. Hoje eu ando de ônibus e esqueço o sabor da vida. Por vezes eu me sinto tão vazio. Hoje eu sinto ter perdido muito dos encantos que me tomavam o peito na infância. Ah, eu gostaria que você tivesse conhecido o garoto que fui aos dez anos de idade, mas não foi isso que aconteceu. A gente se conheceu após eu ter tido contato com o lado amargo de quase tudo que já vi. Hoje eu vivo num mundo onde não se riscam mais o chão com giz. Hoje não mais desenham um sol no chão para fazer a chuva passar. Por vezes eu me entristeço ao pensar no quanto a vida mudou após o fim da minha infância. Hoje eu sou diferente e temo que isso possa te assustar. Hoje eu sou tolo e faço tanta coisa errada! Espero que eu possa aprender contigo como se dança levemente sobre o mundo. Daqui a quarenta anos, surpresa pra mim não será ver carros voadores ou bombas atômicas sendo vendidas na feira da Ceilândia. Surpresa será você não estar lá pra me dizer que tudo aquilo é estranho demais. Daqui a quarenta anos não me surpreenderá ver as pessoas comprando pílulas nas farmácias que estimulem as mesmas a sentirem amor. Me surpreenderei se eu precisar comprar uma por você não estar lá. Será surpresa eu precisar roubar um fio de seu cabelo e te clonar na ilusão de que teu clone será você. Surpresa será não ser teu amigo. Também será uma triste surpresa se nossa amizade imitar os rostos e inventar de criar rugas. Em quarenta anos, nascerão flores que nunca serão percebidas, nascerão Hitlers que talvez tenham um palco para “brilharem”. Talvez o mundo acabe e as pessoas habitem Marte ou qualquer outro planeta. Talvez eu seja um professor aposentado que durante a vida inteira disse aos alunos que o importante era memorar o que fomos para que as flores que nasceram e não notamos, fossem sim percebidas. Mas independente do que eu venha a ser, hoje é tão exato o meu desejo de resmungar, ou me orgulhar da vida, tendo tua amizade lá no futuro também. Eu sei, nos deram amostras grátis de que poderemos não ter as nossas conversas daqui a quarenta anos, pois a ciência avança rápido demais e demonstra querer acabar com o mundo antes que cheguemos aos nossos setenta anos de vida! O mundo se preocupa em cultivar maldade e eu insisto em seguir na contramão. Eu insisto na ideia de que sempre seremos amigos. Nos próximos quarenta “Dia do Amigo”, se pudermos nos comunicar, será perfeito e não me surpreenderei se amizade sair de moda e sermos cafonas fora de moda por ainda sermos amigos! Daqui a quarenta anos, as asas de teu coração serão ainda mais fortes e não me surpreenderei se eu me pegar visitando estrelas ao pegar carona com ele.

domingo, 17 de agosto de 2014

Venenos Disponiveís

“Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais fortes, dos cafés mais amargos. Você pode até me jogar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí? Eu adoro voar!”*** Hoje é um dia em que tudo parece estar errado, tudo parece estar fora do lugar. Ou melhor, nada parece existir. Um dia daqueles em que temos a sensação de vivermos num grande vazio, de viver no vácuo de uma geração que há tempos não consegue se encontrar. Parecemos bichos desesperados andando sem direção e sem sentido, fazendo de conta que tudo está bem e que estamos conquistando o mundo. Doce ilusão essa de que o que temos é real, que vivemos num mundo de verdade. Nas manhãs que precedem esse dia, em que me sinto só e desesperançado como um verdadeiro filho de José, não sei diferenciar o que eu sonhei e o que eu vivi, e na verdade, não faz muita diferença. A sensação que o sonho me traz é melhor que o frio dos olhares que eu direciono ao mundo quando acordado. Olhares que são respondidos com medo e desconfiança. Em qual momento será que perdemos o sentido, em que os planos pequeno-burgueses se tornam tão ordinários e banais que não inspiram nada além de uma ironia amarga, não inspiram nada mais que um rosto pétreo e uma boca fechada. Felizes os que não vêem e acreditam, porque eu mesmo vendo não consigo crer. Falta em mim a fé que sobra ao mundo, falta em nós o véu de maia que Apolo presenteou o mundo, por ser o pai bondoso que não quer que os filhos sofram, mesmo que tenha que privar o mundo desses filhos. Como todos sabem, escrevo para exorcizar meus demônios, para curar minhas feridas, mas hoje eu não preciso de letras, preciso de lágrimas. Entretanto minha capacidade de chorar é bem menor que à vontade de escrever. Por isso escrevo, iludo mais uma vez meu coração, minha mente. Finjo me realizar nos meus textos, crio um mundo em que seja suportável viver mesmo sabendo que nada é real. Crio um mundo de tragédia, que represento no dia–a–dia, que represento através dessa ânsia de conhecer o fim do mundo, de chegar ao cabo das sensações, de estar sempre perto dos venenos lentos e das bebidas fortes. Onde permeio o abismo com esperança de que alguém me empurre e eu possa voar. E existem dias que represento tão bem que até eu mesmo acredito, eu mesmo acho que vale a pena e quase consigo me acalmar. Mas na verdade sou um ator cansado da personagem, esperando por uma proposta da vida para renovar o repertório.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Tons do Tempo

O menino tocava sua gaita de boca na rua. Era noite e chovia. Seus olhos estavam ofuscados pela chuva e pelo choro. Não sabia ainda por que chorava. O pranto começara depois da angustia que prendeu seu peito. A angustia ele não sabia de onde vinha. Agora ele não sabia mais o que era chuva e o que era lágrima. Não sabia mais se a gaita tocava ou se a alma gritava. A angustia apertou. O quarto apequenou. E na rua teve que buscar alento. Andou quadras e quadras, pessoas iam e viam. Os rostos eram de cera. Os cabelos eram pintados. Os passos eram em falsete e a vida em cavalete. Parecia uma tela mal pintada de um pintor que pintava para agradar alguém. Ele não era mais menino, mas guardava algo que dava uma aura de menino. De pintor que agrada ele nada tinha. Não conhecia cores, não rabiscava quadros e muito menos agradava. Decidiu que numa tela não podia ficar. Melhor era ficar numa música. Correu ao apartamento e pegou o violão. Desceu as escadas e o violão pesou no braço. Sua cor era escura, seu corpo desengonçado e suas notas desafinadas. Parecido demais comigo, pensou o menino que não era mais menino. Correu as escadas de volta e pegou a gaita. Ela era pequena. Podia jogá-la na sua alma se essa saísse correndo. Ia parar mas não machucar. Correu por costume. Sabia que de nada vala correr. Correu por que seus sapatos são tão macios quanto podem ser. Correu porque os mosquitos viraram gente e agora nos perseguem. Correu porque sabia que andava em círculos e que voltaria ao mesmo lugar mais rápido. Ele queria estar ali. Só não queria que fosse numa tela. Nem que a música fosse de violão. Andou com a gaita no bolso da jaqueta. Ventava forte e seus cabelos voavam. Voava um por um, e a cada dia ele ficava mais careca. A cada dia ele ficava menos menino. E aquela coisa que ele guardava e ninguém sabia explicar o que era ficava mais guardada. Ele ficava mais guardado. Queria agora ser musica de gaita. Tela todo mundo olha. Violão todo mundo entende. Gaita só acompanha. Ele queria se guardar no acompanhamento da vida. Daquela que anda em círculos e que traz no tempo o tempo que já passou e o que já não queríamos mais. Queria acompanhar aqueles malditos momentos que tentamos esquecer e de repente voltam no circulo louco da vida. E quando déssemos de cara com os despojos do fato mal enterrado, ele queria tocar uma música. Música na gaita. Música de acompanhamento. Acompanhar fatos mal enterrados seria sua vida. Não acompanharia boas lembranças. Deixe essas ao som do piano. Não acompanharia memórias decisivas de vidas decididas. Para isso deve existir alguma coisa para acompanhar. Acompanharia os fatos dos acovardados. Aqueles fatos que deixamos para resolver amanhã. Aquele namoro que terminaria amanhã e acabou em divórcio e guarda compartilhada. Aquele maldito emprego que seria abandonado amanhã e hoje virou câncer. Aquela última tragada antes de viciar e agora virou enfisema. A vida dele seria a volta do que não foi. Mas não vivida em imagens. Muito menos em letras. Seria vivida ao som da gaita. Em cada momento crucial de reencontro com a verdade que tinha sido escondida ontem, ele estaria vivendo ao som da gaita. Subiu o morro. Olhou a cidade. Percebeu que tinha muita vida pra viver. Muitas notas de gaita para tocar. Foi aí que a angustia veio. Agora ele lembra. Não tinha aprendido a tocar gaita ainda. O choro veio pela angustia e pelo horrível choro que ele fazia na gaita. E eram lágrimas mesmo. Chovia só na sua alma. Era noite só na sua alma. O vento levava apenas o seu cabelo. Era dia e estava sol, quente. Lembrou também o que era aquilo que ele guardava que o deixava um menino que não é mais menino. A certeza que tem muito ainda para viver.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dias estranhos

Se eu pudesse escolher, todos os dias em que eu estivesse inspirado para escrever estariam chuvosos e frios. O maior problema, é que esses seriam os dias mais comuns. E daí, como nasceriam as plantas se o astro rei se olvidasse sempre atrás das nuvens? Como se tivesse preguiça de levantar. Não considero esses dias tristes, apenas dias íntimos. Acho que os consideram tristes aqueles que não conseguem se unir a eles mesmos, que não conseguem aceitar os meandros de sua própria personalidade. A pouco também eu torcia por dias ensolarados, principalmente em finais de semana. Aqueles dias que nos arranca de nós mesmos sempre depois de um convite irrecusável de uma pessoa irrecusável.
Os dias chuvosos e frios nos trazem a nós, nos fazem íntimos dos monstros e dos anjos que vivem em nós. E odiamos, não as gotas de água que caem valentes de alturas indizíveis, mas a libertinagem que vemos no monstro e a inocência que vemos no anjo. Nós, homens e mulheres da nova era, não podemos ferir nem nos enganar. Somos máquinas que devem ser preparadas para viver. Mesmo que esse viver signifique não sentir, não experimentar nada além daquilo que nos tira de nós mesmos. Mesmo que signifique não nos encontrarmos com nós mesmos num quarto vazio, com um espelho, que nessas horas consideramos malditos, porque nos mostra não aquele rosto saudável e sorridente que apresentamos nos meios sociais, e sim aquele ser que vive em nós, aquele ser que realmente somos, que chora a cada desventura, que ri a cada migalha de atenção recebida.
Esses dias são os melhores para um escritor, que joga em papeis e teclados aquilo que queima seu ser, aquilo que o faz rir e chorar, aquilo que o faz ferir e curar. E nesses dias mais do que nunca um escritor encontra temas. Mais do que nunca um poeta encontra musas, porque é dentro de cada um que nascem tantos personagens e histórias. É nesses dias em que temos de viver em nós o que facilmente poderia ser jogado fora numa mesa de bar ou numa roda animada. Nesses dias não podemos fugir do monstro do espelho, que ri e nos aponta o dedo, sabendo o quão dolorido vai ser assumir que temos espadas sempre apontadas a todos, e que primeiro ferimos para nos defender, e depois procuramos saber se o ferido realmente queria nos machucar.
Nesses dias temos que perceber a lágrima de criança do anjo, que chora por ter acreditado. Que chora por ter amado e que sente raiva por ter sido enganado. Nesses dias é que temos que assumir que anjos e crianças sentem raiva. Nesses dias que temos que assumir que somos crianças inconseqüentes e anjos ingênuos. Nesses dias de chuva, em que nada parece se encaixar e que tudo parece aparecer.

domingo, 6 de julho de 2014

Chase

Viajo dentro de minha cabeça como se o mundo não fosse parar. Estou perecendo diariamente, meu corpo esta mudando, estou caminhando em direção a faixa de chegada. Deixo tudo ai passar diante de meu nariz, nem percebo, a felicidade passa em pequenas doses não regulares no sangue adoecido pela tristeza. Rodopio e titubeio em mudar tudo sem perceber que não à nada a se mudar, somente uma vida a seguir. Aceitar minha natureza e simplesmente, seguir. Procuro minha alma em cada instante em todas as estantes e me encontro sozinho em meu espelho todos os dias. Acredito nas mentiras e invento minhas verdades diariamente, a ponto de esquecer onde estou, quem sou, para onde vou ou devo ir. Busco agora, somente ser quem posso ser, sem cortes, sem censura alguma. Fui aprisionado por minhas fraquezas dentro de um mundo que não sonhei para mim. Não me firo mais, tenho as marcas e o sangue estampado em minhas vestes. Meus olhos se tornaram dois poços secos e sem fundo, onde hoje se depositam moedas passadas para se ter algum pedido e desejo que prontamente não serão atendidos. Deterioro o tempo que consome meus preciosos minutos, ainda respiro e valorizo cada inspirar, pois ainda estou aqui. Escrevo, penso, insisto, espero e caminho na direção que me cabe, não na que me convém. E ainda sim, me conforta, saber que não sei o dia exato do termino de tudo e nem a cor da faixa que vou cruzar, o certo é que como for, por tudo o que já percorri, já me sinto um campeão. Solitário, mas ainda sim, um vencedor. Pensei em um mundo de inércia, senti em meio a tantos sentires abstratos. Fiz musica do meu toque, gravei minha existência na carne e na alma, e isso, compensou mau e porcamente a balança de minha justiça. Meu coração de criança, está magoado com minhas atitudes de adulto. Paguei para crescer e esqueci que minha vida era ser criança. Não sei mais dizer exatamente o que me tornei, sou um adulto que aprisiona uma criança, sou uma criança que tem medo de sobrepor o adulto, seja como for, me falta planos, me falta caminhos, me falta brilho, me falta alma. Talvez, bem talvez, esteja aqui, perto de mim, embaixo da cadeira ou de meu braço, de fato, um motivo para ainda ser, procurarei minha alma, se ela ainda procurar por mim.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Verdades ou mentiras

Confiança insólita esta que depositamos no próximo mais próximo ao nosso coração. Que mérito tem a verdade pintada de melhor solução se é justamente a que cai e leva os sonhos gerados no útero de um amor geneticamente impossível de ser gerado, afinal, humano. Tento crer nos olhos, nos gestos, no ser, a cada segundo, hora, dia e vida me desaponto mais com as palavras que ainda não me foram ditas, e ainda sim, espero que nunca sejam ditas, pois já me basta a esperança de que fiquem como são, somente péssimas. Disfarçamos nossa natureza de fel em meio de cores belas e palavras idôneas, somos bons, temos caráter, índole, natureza nobre, que merda toda, no fim, somos sim a mediocridade do egocentrismo em busca de prazer e dinheiro barato, junto a escoria de nossos sentimentos secos e desidratados por lagrimas caídas em vão. Sim, visão pessimista do quão somos assim, diria eu, otimista, pois dentro de todo meu pouco conhecimento, vislumbro tamanha má intenção de sobrevivência em meio a própria espécime. Levo passo a passo e não passo por nada e ninguém que valha melhorar minhas palavras. A mentira é tudo o que me resta depois de todas as verdades que me contaram. Acredito ainda em contos de fadas, procuro duendes, e uma vez, uma só, vi o coelho da páscoa. Mas não me solicite crença nas pessoas as quais no fundo ainda buscava alguma espécie de luz, que fosse então um sinal vermelho, de pare por aqui, mas nem isso, só escuridão, mesmo no brilho de vastos sorrisos que nos são abertos durante a vida. Encerro meu desabafo aqui, no aguardo de meu anjo salvador, o salvador dali, ou daqui, de onde for, que traga a mais bela mentira a meu colo, a aceitarei de prontidão, grato, pela mentira mais bela ofertada. Verdades, deixo para os contos, os quais ainda acredito.