segunda-feira, 8 de setembro de 2014
.44 Caliber Love Letter
Eu queria ser um príncipe. Não desses encantados, que beijam as donzelas, que galopam em belíssimos cavalos brancos, não. Apenas queria ser príncipe. Queria ser como é o herdeiro do trono da Inglaterra, o príncipe Charles. Ser capaz de entronar uma senhora simples e revesti- la do esplendor principesco a que está sujeito o império britânico. Poder traduzir em ações, para que o mundo inteiro veja que, a mulher que eu escolhi é digna da coroa. É princesa por natureza. Não precisa de retoques, de artimanhas, de vestidos caros para que seu brilho seja notado. Nestes casos o brilho seria do parlamento e não dela. Ela é cheia de brilho natural. Brilham seus olhos castanhos, seu sorriso, seu caminhar delicado, embora sua postura seja firme e seus traços denotem autoridade. Mas, de forma natural. Um poder nato dos que nascem para dominar situações, lugares, grupos de pessoas, e todo tipo de coisa em que a presença do líder é e se faz necessária.
Mas, não o líder na pessoa do dominador, do opressor e sim a liderança cautelosa, zelosa, prestativa, que ampara, que educa, que ouve e sabe sempre o que dizer, que doa de si. Ela tem o dom de se fazer entender, sem se fazer notar. Ela é discreta e recatada, não faz alarde, não tem vozearia ao seu redor. Ela é maior do que eu, não na estatura mas, sim no caráter, na deferência, no seu estilo sutil de ser. Ela é algo de quimera, de utópico, alusivo aos contos de fada. Mas, ela existe sim. É real e tem nome. Chora, ri, se emociona como todas as pessoas, conta piada e se preciso for até briga. Com cuidado para não ferir, mas ela faz isso sim. Por isso eu a estimo tanto, eu a admiro, a respeito e a quero junto de mim.
Eu deveria ter te conhecido há muitos anos, quando eu ainda tinha um sonho de construir uma casa na árvore e tentava conquistar amigos para me ajudarem a realizar este sonho de infância. Com certeza você teria me ajudado a construir aquela simples casa na árvore. Eu deveria ter te conhecido no meu primeiro dia de aula, quando eu olhei para as demais crianças e notei que todas pareciam tão tímidas. Eu queria ter brincado de “pique-esconde” contigo na infância, mas eu não te conheci naquele tempo. Daí agora me resta criar uma mitologia que nos insira de alguma forma no mesmo contexto, no tempo em que éramos crianças.
Eu gostaria que você fosse a minha parceira na quadrilha que dancei aos seis anos de idade, mas você ainda não estava lá. Eu gostaria de ter te ensinado algum palavrão.
Queria ter pulado Amarelinha contigo nos meus nove anos. Ah, ao teu lado eu queria ter rabiscado nossos nomes e nossos desenhos sem sentido no asfalto, mas como eu disse a pouco, você ainda não estava lá. Ah, talvez não houvesse tanta solidão no mundo se o mundo inteiro te conhecesse. Eu sou capaz de sentir o valor de um simples sorriso e o quanto este simples hábito humano é capaz de espantar pra longe a solidão. Existem pessoas capazes de sentir o que eu sinto graças a você. Algum sorriso despretensioso teu, já trouxe cores vivas ao meu horizonte.
Eu queria ter aprendido o sentido de várias coisas ao teu lado. Descobrir juntos o sabor da amora. Aprender juntos o significado da palavra “coração”. Contar segredos bobos que nem deveriam ser segredos. Eu queria ter a sua presença nas minhas fotografias da infância. Imagine quantos “primeiros pedaços de bolo” você ganharia de mim em meus aniversários. Seriam vários. Eu queria ter andado contigo de bicicleta nas ruas esburacadas da nossa infância.
Eu queria assistir a tua primeira formatura e teu aniversário de sete anos. Queria ter visto pessoalmente se você chorou ao arrancar o primeiro dente, caso você tivesse chorado, eu iria te abraçar e dizer que a dor passaria logo. Eu te daria os adesivos do meu caderno na terceira série. Eu te defenderia em todas as brigas. Eu te contaria os meus sonhos. Eu te falaria sobre todos os desenhos animados que eu assistia. Nós ficaríamos tristes por ter que se despedir todo fim de tarde. Eu acreditaria em anjos se eu tivesse te conhecido desde a minha infância.
Por causa da tua existência, eu dormiria já pensando em acordar. Seria perfeito se você fosse mesmo o meu par na quadrilha da escola quando eu tinha apenas seis anos. Sentaríamos juntos no ônibus escolar lá na terceira série. Teríamos o mesmo medo de tirar notas baixas. Mas infelizmente não nos conhecemos antes.
Hoje eu tenho pressa em terminar a faculdade e dependo de dinheiro para um monte de coisa.
Hoje eu ando de ônibus e esqueço o sabor da vida. Por vezes eu me sinto tão vazio. Hoje eu sinto ter perdido muito dos encantos que me tomavam o peito na infância. Ah, eu gostaria que você tivesse conhecido o garoto que fui aos dez anos de idade, mas não foi isso que aconteceu. A gente se conheceu após eu ter tido contato com o lado amargo de quase tudo que já vi. Hoje eu vivo num mundo onde não se riscam mais o chão com giz. Hoje não mais desenham um sol no chão para fazer a chuva passar. Por vezes eu me entristeço ao pensar no quanto a vida mudou após o fim da minha infância. Hoje eu sou diferente e temo que isso possa te assustar. Hoje eu sou tolo e faço tanta coisa errada! Espero que eu possa aprender contigo como se dança levemente sobre o mundo.
Daqui a quarenta anos, surpresa pra mim não será ver carros voadores ou bombas atômicas sendo vendidas na feira da Ceilândia. Surpresa será você não estar lá pra me dizer que tudo aquilo é estranho demais.
Daqui a quarenta anos não me surpreenderá ver as pessoas comprando pílulas nas farmácias que estimulem as mesmas a sentirem amor. Me surpreenderei se eu precisar comprar uma por você não estar lá. Será surpresa eu precisar roubar um fio de seu cabelo e te clonar na ilusão de que teu clone será você. Surpresa será não ser teu amigo. Também será uma triste surpresa se nossa amizade imitar os rostos e inventar de criar rugas.
Em quarenta anos, nascerão flores que nunca serão percebidas, nascerão Hitlers que talvez tenham um palco para “brilharem”. Talvez o mundo acabe e as pessoas habitem Marte ou qualquer outro planeta. Talvez eu seja um professor aposentado que durante a vida inteira disse aos alunos que o importante era memorar o que fomos para que as flores que nasceram e não notamos, fossem sim percebidas. Mas independente do que eu venha a ser, hoje é tão exato o meu desejo de resmungar, ou me orgulhar da vida, tendo tua amizade lá no futuro também.
Eu sei, nos deram amostras grátis de que poderemos não ter as nossas conversas daqui a quarenta anos, pois a ciência avança rápido demais e demonstra querer acabar com o mundo antes que cheguemos aos nossos setenta anos de vida! O mundo se preocupa em cultivar maldade e eu insisto em seguir na contramão. Eu insisto na ideia de que sempre seremos amigos. Nos próximos quarenta “Dia do Amigo”, se pudermos nos comunicar, será perfeito e não me surpreenderei se amizade sair de moda e sermos cafonas fora de moda por ainda sermos amigos!
Daqui a quarenta anos, as asas de teu coração serão ainda mais fortes e não me surpreenderei se eu me pegar visitando estrelas ao pegar carona com ele.
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